me equilibro entre dias e noites

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quis hoje o dia amanhecer incerto por causa da minha vontade de falar sobre Renato.

estávamos escutando Legião do lado de fora, como em todas as noites. eu em pé e mainha sentada. tocou ‘a montanha mágica’, a versão do ‘música para acampamentos’ que começa com ‘you’ve lost that lovin’ feelin” e termina com ‘ticket to ride’. e de todas as vezes que aquela música tivesse afetado um pedaço meu qualquer, naquela me destroçou.

eu pensei nele. pensei nele compondo. pensei nele sendo alguém que carregava aquilo, angustiado, durante o tempo suficiente para ser exposto do jeito que foi. também chorei angustiada e quieta dizendo à mainha que ser como ele era triste.

lembrei de quando li ‘o diário do recomeço’. lembrei de percebê-lo sempre só.

a gente nasce para ser assim até morrer? ou é mais uma prova?

nem todas, mas algumas obras são biográficas, né?! então acho que conheço um pouco de Renato todos os dias. e só sinto vontade de abraçá-lo e dizer (a ele e a mim mesma) que de algum jeito é possível ter na vida calma e força.

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Socorro! eu não estou sentindo nada

Eu fui habituada a engolir minhas angústias e medos,

Pois são tão menores que quase todos os dos outros,

Daqueles que tomam o luto como verbo pelas ruas cheias de abismos e muros colocados lá por alguém.

Pois são poucos meus atributos de alvo,

Mesmo que eu seja uma mulher com sorrisos pré elaborados diante de insultos, de provas para testar minha autoridade sobre meu corpo e sobre quem quero ser e o que penso.

Mesmo que erre quando acho que a guarda abaixada me guarda e me defende de ataques.

Mas eu engulo,

Pelo que passa a cor de raízes tão mais profundas e fortes que as minhas retorcidas e piores que as de um mangue morto,

Que o meu pedido de perdão e minha vergonha.

Mas eu tenho que engolir

O choro do ansioso, do que não se conforma, a minha fome que quase não existe, amenizada.

Não posso dizer que há agonia dentro do meu privilégio.

De nada valem esses problemas.

Que eu constantemente me coloque no lugar do outro, empática,

E vá esquecendo do caminho, do meu.

Nada, diante dos outros.

Nada, diante de lutas palpáveis.

Não há ironias.

Eu fui aprendendo.

Eu não posso ter dor, que ela quase não exista,

Que eu a mande não sei para onde.

Que ela me obedeça.

Há voz dos que têm fome de comida, de direito, de abrigo, de arte, de respeito, do que é seguro, de amor, de tempo, de conseguir viver.

Eu quase quase consigo.

Sendo ínfima diante de quem luta.

Eu sei.

E calo minha voz de apenas alguns pedidos e resistência para que ouçam.

Quem me impede sou eu,

Que pouco sei de quem são e dou a vez que não é minha.

Que isso não me faça bem.

Eu engulo porque deve ser ridículo se me incomodo.

Sinto muito porque não sei o quanto vale a minha existência.